Museu da Cidade on-line

 
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MUSEU DA CIDADE: uma década de existência

Adriana Barão

“É interessante observar que sendo representação, a memória não é a marca deixada pelo tempo. O bem cultural, por esta ótica é um sinal, uma marca, uma cicatriz ou uma chaga projetada no tempo. A memória não se encontra depositada sobre os bens culturais (objetos) e naturais, encontra-se na relação que com eles se pode manter.”
(Mário Chagas)

Inaugurado em 3 de abril de 1992, o Museu da Cidade (MuCi) foi gestado para ser um Centro de Referência, com vocação para pesquisa e preservação da memória de Campinas, enfocando tanto o patrimônio material, tal como imaterial, ou seja, festas, danças, cantos, comemorações, entre outras manifestações culturais.
Sua criação se deu através da junção dos três museus existentes, até então: Museu do Índio, do Folclore e Histórico. O objetivo de integrar os acervos desses três Museus, trazia uma preocupação em considerar a diversidade cultural e suas produções, materiais ou não, com a mesma importância, por exemplo, não separando o “folclórico” do histórico.
Por isso, podemos dizer que o MuCi é permeado por uma pluralidade, e esta marca está exposta no que hoje compreende seu acervo material: mobiliários do poder público municipal, carrinhos de pipoca; utensílios domésticos, cestarias indígenas, plumarias xavantes, objetos musicais, troféus carnavalescos, maquinas registradoras, prelo, fragmentos dos prédios demolidos do Teatro Municipal Carlos Gomes e da igreja do Rosário, telas e quadros, tal como a coleção de aquarelas de José de Castro Mendes, entre outras peças.

POLÍTICA DE ATUAÇÃO

Esta diversidade aponta para a própria vocação do MuCi, uma instituição de memória que pretende preservar as versões dos vários agentes culturais que fizeram e fazem parte da história campineira.

Além da preservação deste acervo, o Museu durante seus dez anos de existência, tem se preocupado com a difusão cultural. Neste ano em que comemora uma década de existência, o MuCi redirecionou sua linha museológica e implementou as seguintes ações voltadas ao público:
· exposições semestrais
· exposições mensais, tematizando o acervo e as relações contemporâneas da cidade
· exposições itinerantes (acervo)
· Caminhada história e city tour
· Encontros com a cidade (ciclo de palestras e debates)
· Publicações
· Oficina “Contadores de Histórias”
· Programa “Agentes da História”

Percebemos que a interface com a comunidade tem se dado de forma intensa, no sentido de atingir um público quantitativamente grande (cerca de 3000 visitantes p/mês), assim como, ter um impacto qualitativo bastante importante, através de parcerias com a comunidade. Um exemplo destas parcerias é o programa “Agentes da História”, que através de uma metodologia de historia oral, busca registrar e preservar memórias de personalidades anônimas, ou que tem importante atuação em seu bairro, seu grupo de trabalho, enfim, vozes nem sempre destacadas no registro histórico oficial.
O primeiro projeto realizado dentro desta perspectiva está sendo a formação da Coleção Laudelina de Campos Melo(1) , no Muci, com parceira da Casa Laudelina – Associação de Mulheres Negras. Este trabalho torna-se relevante na medida que musealiza uma personalidade que não fez parte da elite campineira, mas que teve grande atuação político-social entre as classes populares, fato que inovador, pois grande parte do acervo do Muci refre-se ao poder constituído, ou a elite econômica de Campinas.

AÇÕES EDUCATIVAS

As ações educativas do Museu têm se preocupado em sensibilizar o público (estudantes ou não), para percepção deste espaço cultural como um lugar de produção do conhecimento e encontro com outras formas de pensar a cidade, através do encontro de gerações, de gênero, de etnias, enfim, culturas diversas podem se (re)conhecer neste espaço.
Especialmente a perspectiva de educação patrimonial, realizada através da caminhada histórica, pretende alterar a relação dos espaços cotidianos que são apenas espaços de trânsito, com relação apenas de uso (seja para trabalho, para comércio, para atividades fins) e sensibilizar para o valor simbólico embutido nas construções, edifícios, praças, monumentos, ruas e personalidades que nomeiam estes lugares. O reconhecimento dessas memórias oportuniza um esgarçamento do tempo presente, pois o “presentivismo” impede um olhar sensível, reflexivo e identificador de si e do outro.
A possibilidade de ampliar a apropriação dos espaços cotidianos do centro pode promover, além de um reconhecimento histórico e identitário, o respeito e o sentido de preservação patrimonial, pois só se preserva aquilo que se conhece.

Após uma década de existência, o Museu da Cidade ainda está gestando sua própria identidade, como todos processos culturais, isto é algo que demando um ritmo vagaroso, o tempo desta gestação está condicionado ao seu parceiro: o público. Ainda há muito o que fazer para esta instituições estar de fato atrelada às relações com a cidade, através da sua memória e sua contemporaneidade, este é o desafio posto na reflexão de seus dez anos.

HISTÓRICO DO PRÉDIO

O prédio do MuCi, situado à Av. Andrade Neves, foi construido em 1884, funcionando como Fundição Lidgerwood. O prorpio predi é um documento que traz as marcas das transformações que aconteceram ao final do século XIX, modificaram as relações econômicas e as dinâmicas sociais existentes no país, marcado pelo fim do sistema escravocrata e inicio do processo de industrialização.
A Lidgerwood, era a marca do crescimento do “oeste paulista, neste período a Companhia comprou terreno junto ao prédio da estação ferroviária, em 1922 torna-se depósito, gerenciado pela Firma Pedro Anderson &Co, e em 1928, o prédio é comprado pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Tombado em 1990, o prédio se torna museu dois anos depois através de um acordo de comodato firmado com a CPO. Neste ano, a Prefeitura Municipal de Campinas, em acordo com a CPO, conseguiu adquirir definitivamente o prédio como propriedade.

Adriana Barão
Coordenadora do Museu da Cidade (Secretaria Municipal de Cultura, Esporte e Turismo)


(1) Laudelina de Campos Mello foi a fundadora do primeiro sindicato das empregadas domesticas no Brasil e teve importante atuação política e racial na cidade de Campinas, realizando um trabalho voltado, em especial, para mulheres negras.

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